19 de dezembro de 2009

Pequenas intrusas

Não bastasse tudo o que já havia enfrentado, tinha de entrar naquela casa novamente. Não obstante, esta seria a última vez em vida.

Parada, ali, na grama do jardim, em frente à casa solitária na qual brincara por diversas vezes quando de sua infância, Selma mergulhou numa lembrança vívida e contraditória, mesclada de raiva e ternura, amor e ódio, revolta e conforto—coragem e medo.

Embora soubesse o que tinha de fazer, parecia perdida; seu olhar era baixo e desprezível. A chuva começava a cair naquela noite. Talvez tenha sido isso, talvez a esperança de vê-los novamente ou, ainda, a combinação de ambos que fizeram seu semblante mudar repentinamente. Recrudesceu.

Clareada pelos relâmpagos, parecia decidida agora. Apenas tinha de abrir a porta, atravessar a longa sala de estar, onde seus pais recebiam os amigos. Os sofás ainda exibiam as marcas das unhas, as janelas quebradas permitiam que o vento entrasse e trouxesse um pouco de ar límpido para aquele recinto, abandonado havia cerca de 20 meses.

Ao lado direito, após uma passagem larga e com batentes finamente trabalhados com madeira e pedras brilhantes como ornamento, havia uma sala igualmente acolhedora, onde comemoraram várias conquistas, celebraram as ceias dos natais de sua infância e onde havia uma mesa com os quatro pratos e pares de talheres que seriam usados no jantar daquela noite fatídica.

Quando se deu conta de que estava já ali, sempre iluminada pelos relâmpagos, se propôs a subir as escadas. “Isso será rápido e indolor”, pensou. Estava enganada. Ao voltar-se para a sala de estar, notou um movimento anárquico e sem uniformidade, tal qual uma TV fora do ar. Estavam ali, acima dos batentes da passagem. Começaram a sair de todas as frestas, que agora se expunham nas portas e nas paredes. A casa clareou por mais uma vez. O suficiente para perceber as centenas de aranhas que pareciam sentir a presença da visitante, outrora, uma das habitantes daquela casa, agora, tendo como seus donos aqueles aracnídeos repugnantes.

Também foi o bastante para que visse a cozinha e os armários onde mantinham arroz e outros grãos, bem como os doces em barra, os potes de frutas em conservas e as panelas que usavam na preparação das refeições. Algumas das quais estavam em cima do fogão desde a noite em que levaram seus pais. Conseguia ver que elas, as novas donas da casa, também estavam ali, mas começaram a sair das panelas. Marchavam em sua direção. O vento continuava a entrar, balançando as longas teias que se formaram ao longo daqueles meses.

Ficasse naquela sala de jantar, seria encurralada pelas aranhas marrons, pretas, viúvas-negras e caranguejeiras que se apressavam diante dela. A comida acabara havia já algumas semanas. Estavam famintas. Entretanto, mais pavorosa era a idéia de passar por debaixo daquele batente, em direção às escadas que acessavam os quartos da casa assustadora. “E se uma delas cair em meu cabelo?”, conjeturava. “Dane-se o cabelo”, concluiu. Tomou coragem e passou. Nenhuma das aranhas caiu sobre ela. Contudo, os passos rápidos incomodaram as que estavam no assoalho.

Como uma enchente, elas subiam e pareciam se amontoar umas sobre as outras no chão da sala de estar. Selma subiu as escadas desesperadamente. A cada degrau que subia, podia sentir como se algo estivesse estourando sob seus pés. Aranhas minúsculas subiam pelos seus pés e pernas, tão rapidamente quanto Selma subia os dois lances de escadas, com curva à direita.

“Em qual dos quartos, qual será?”, perguntava a si mesmo com a voz já embargada pelo desespero e o asco incontrolável daquelas aranhas que estavam em suas pernas. Tentou retirá-las dali num movimento rápido e esbaforido. Com elas, saiu também uma parte da pele, expondo sua carne. Ávidas por alimento, aquelas aranhas estranhas e pequeninas, nunca catalogadas por qualquer livro, mais pareciam piranhas de oito pernas. Possivelmente, uma mutação que se desenvolveu ali, resultado do isolamento e das mudanças climáticas. Claro, para os antigos cientistas da ONU, tudo poderia acontecer em função do clima. Entretanto, não havia ciência que explicasse aqueles dias infernais. Afinal de contas, já não havia mais ciência ou teorias que explicassem qualquer fenômeno ou seres. Sequer uma explicação sobre o próprio destino da humanidade.

Desde que os mares subiram a um nível nunca pensado – não pelo câmbio climático, mas pela pressão interna da Terra, que fez aqüíferos como o Guarani expulsarem toda a água que havia sob a superfície terrestre – todas as formas de vida remanescentes se concentraram naquela estreita faixa de terra entre o Pacífico e o Atlântico.

No ano de 2109, o homem tornara-se ignorante, asqueroso, inculto e rudimentar: voltou ao tipo de vida experimentada antes da Revolução Industrial. Apenas os lugares mais provincianos não foram afetados, como sua cidade. Um lugar onde ainda havia energia elétrica, embora ninguém mais dominasse sua produção. Mas não houve luz naquela noite. Não artificial.

E ainda que houvesse, não deteria aqueles seres que pareciam ser o próprio mar. Selma lamentou que o mar não tivesse avançado mais e destruído de uma vez a todos. Contudo, o mar de aranhas avançava, na mesma proporção em que sua loucura se tornava evidente.

Em meios aos gritos, vasculhou o quarto de seus pais, na busca da pista que a levaria ao próximo desafio – o derradeiro. Nada encontrou, além de mais e mais aranhas. O sangue que agora escorria por suas pernas atraía também as baratas pretas que saíam do forro. Correu para seu quarto. Nada encontrou que pudesse desvendar o enigma. Lembrou-se, então, de que sua irmã, levada com seus pais, costumava escrever seus segredos em rolinhos de papel e os punha dentro da fronha, sob o travesseiro que usava. Acreditava que se dormisse sobre eles os manteria seguros e que os desejos se realizariam.

Teve certeza de que ali estava a resposta. Como colocar a mão ali? As aranhas minúsculas também estavam lá. O travesseiro ficou cheio delas, mas Selma teria de procurar.

Colocou sua mão dentro da fronha. Sentiu que as aranhas continuavam a subir em suas pernas e estavam também nas mãos, que procuravam pela resposta do jogo maldito em que havia sido posta. Entre cartas de amor, fotos de amigos e os inúmeros papeizinhos, Selma encontrou um cartão-postal. Era da cidadezinha onde haviam passado uma de suas férias. Antes, uma pacata cidade ao pé da cordilheira, agora, uma fria cidade da nova geografia; uma nova cidade litorânea, mas que não tinha perspectivas de receber turistas, apenas a corajosa Selma, em busca da possível resposta. Havia um post it na parte de trás do cartão, que dizia: ALI, ONDE BATER A LUZ DO SOL NASCENTE, TU ENCONTRARÁS A ÚLTIMA PISTA. CONTUDO, NÃO ENCONTRARÁS A LUZ, POIS TUA VIDA APAGAR-SE-Á AO FIM DO MESMO DIA.

Selma já sabia para onde deveria ir. Imaginava qual seria o último desafio daquele jogo macabro. Antes, porém, tinha de sair daquela casa maldita. Suas mãos, infestadas pelas aranhas, expunham as úlceras e fediam. A carne apresentava fissuras, pelas quais as aranhas entravam. Selma já não sentia medo. Não sentia dor. Desceu as escadas vagarosamente, mas decidida. Ao sair da casa, olhou para trás. Um raio atingiu sua antiga morada, reduzindo-a a escombros e uma fumaça preta. Suas mãos voltaram ao normal, bem como os pés. Vencera aquela etapa. Venceria a última?

2 comentários:

Silvana Nunes .'. disse...

SALVE !
Sou professora, pesquisadora e contadora de histórias.Vivo de blog em blog angariando leitores e tentando divulgar o meu pelo simples fato de perpetuar a história de meu país - tenho medo que ela seja engolida por toda essa globalização.
Se gostar de meu esdpaço e achar minha proposta coerente, por favor SIGA-ME nesta luta por um mundo melhor.
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Gostaria que tivesse um pouquinho mais de paciência comigo, estou com alguns probleminhas para resolver: preciso de um novo exame de vista e de um monitor novo, o meu está meio embaçado, já tentei regular, mas o problema está com ele mesmo, tenho de comprar outro. E agora não me encontro em condições disso - só eu sei o sacrifício que faço para postar as histórias.
Se já passei por aqui, mil perdões. Como disse, a falta dos meus óculos e esse monitor com problemas não me deixam enxergar direito.
Que os bons ventos soprem a seu favor neste ano de 2010.
A PAZ .
Saudações Florestais !

Anônimo disse...

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