16 de novembro de 2005

OSSOS DO OFÍCIO



Não era um bom dia para ele. Dormira mal à noite e teria 12 horas de pista pela frente. Sob um sol de 23o C, lá pelas nove da manhã, sinalizava para o motorista do ônibus que se aproximava. Não costumava parar veículos naquele horário, muito menos um carro de grande porte. Mas algo estava errado. Sentia o cheiro da encrenca.
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Seu tirocínio policial nunca o traíra; assim, podia confiar em si. Bastava desconfiar de outrem. Era batata! Se suspeitasse, o soldado Gomes parava. Não apenas isso: perguntava, solicitava documentos, revistava os bolsos, bolsas, casacos e blusões. Nada passava despercebido em suas diligências.
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Três branquelos indo ao Rio lhe parecia demasiado estranho. Brasileiros? – não. Gomes descobrira que Paul, Steve e Carl eram irlandeses. Vinham da Bolívia – o que por si só já era esquisito e levantava suspeitas quanto aos viajantes. Porém, nenhum entorpecente havia com os três infelizes. Tendo passado por Santa Cruz de la Sierra, Steve comprara uma Parabellum 9mm, como as usadas pelos nazistas. Seu brilho despertava a sensação de poder, nas mãos de quem a segurava; medo nos que a viam perante a alça de mira. Foi por essa razão que Steve a comprara. Queria ser convincente no filme que faria – era um estudante de cinema.
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As casas de sal da Bolívia eram o passeio de Paul; a ida ao Rio, de Carl; mas, a ida à delegacia não era o que Steve tinha em mente – era idéia de Gomes. E ele via o ônibus se distanciar, após haver liberado os rapazes. Eram quase 11 horas da manhã; hora de ir ao posto de gasolina para uma merecida refeição. Seu estômago doía, como se estivesse queimando-lhe as paredes. Para policiais a refeição era por conta da casa – ainda mais para os rodoviários; é o famoso ``QSA a milhão``.
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O prato do dia era costela. Nada melhor após uma apreensão de arma, mesmo que de brinquedo.

Um comentário:

Ana Ziccardi disse...

Muito bem, Alex. Continue buscando inspiração e exercitando sua criatividade e talento. Quero receber o primeiro exemplar de seus livros de crônicas e contos. Pense nisso !! Procure com alguém que seja especialista uma forma de evitar que seus textos sejam 'copiados', ok ? Isso é possível, graças a um comando, mas eu não sei como funciona.

Abraços

Ana Ziccardi