5 de outubro de 2005

Luxo X Lixo




É sabido de todos que o Brasil é o campeão mundial de desigualdade social. Talvez, sejamos mais habilidosos nisso do que no esporte mais popular do país: o futebol. Justamente por isso, e por ver pessoas humildes ascenderem socialmente graças ao futebol, causa tanta indignação ver um jogador desse esporte ostentar tanta vaidade quanto o fez Ronaldinho Gaúcho, na última semana.
Eu morei em Porto Alegre. Jardim Vila Nova. Zona Sul da capital gaúcha. Era próximo do bairro do Ronaldinho. Passei muitas vezes por lá, a pé. Via os “guris” correndo para lá e para cá, atrás de uma “pelota” e empinando “pandorgas” lindas. Via como viviam. Via como sonhavam, e via também a realidade dos adolescentes e adultos que descobriam a vida real nos ônibus lotados, a caminho do trabalho, ou em busca dele. Via a realidade de privações por que passavam; o que tinham de fazer; ao que tinham de submeter-se. Pessoas simples.
Quando vem ao Brasil, Ronaldinho bate pandeiro com eles, canta e dança. Não posso dizer que sim, mas acredito que ele deva fazer algo de bom à sua comunidade, tal como uma ajuda financeira a uma creche, ou projeto de auxílio à juventude. Mas não posso afirmar tal coisa, pois, ou estou mal informado (e nesse caso, ele realmente tem ajudado alguma instituição), ou ele não o faz (e se faz, não há divulgação). Afinal de contas, há um ditado que diz: ‘‘que a mão direita não saiba o que faz a esquerda’’. Mas mesmo que ele faça muito (suponhamos que sim), que ajude creches, hospitais, instituições filantrópicas com as mais diversas finalidades, nosso país, chamado Brasil, é a terra da imagem. Imagem diz muito. Por isso mesmo que a atitude do craque (ao exibir suas chuteiras douradas) foi lamentável.
Nada contra quem prospera, quem luta para construir. Se alguém consegue atingir uma posição financeira privilegiada é por seus méritos e trabalho honesto (pelo menos no caso dele, sabe-se que realmente o foi com seu suor e não fruto da dominação ou mensalões). Mas perante o mundo, e para o Brasil, foi uma atitude medíocre.
Ou ele é muito ingênuo, ou é esnobe, ou é mal assessorado. O impacto negativo das imagens do craque do Barcelona jogando com a chuteira de ouro podem ser muito ruins. Imagino o jovem que cresceu com ele, em Porto Alegre, e que o vê pela televisão o exibicionismo do amigo. Como acreditar em igualdade e futuro justo para todos quando quem vem de baixo se entrega a tais manias de grandeza? O que ele (Ronaldinho) poderia fazer, ao invés de ficar se exibindo assim, era transmitir a idéia de que precisamos estudar, melhorar nossa vida para sermos úteis aos semelhantes, deixarmos uma contribuição real aos nossos filhos (não apenas o dinheiro). Mas somos filhos do Brasil, um país em que deputados lesam o dinheiro público, atores e atrizes se divertem na Daslu, na companhia de governadores, e playboys desfilam em seus Audi A8 e alguma coisa. A imagem vale mais do que quem você é.
Nesse sentido, é até compreensível a atitude do gaúcho. Talvez ele seja mais vítima do que vilão. Vítima de um sistema que diz – o dinheiro tudo compra! Mas poderia ser pior. Tomemos como exemplo o caso de Michael Jackson.
Num país de brancos, onde a classe dominante é branca (o que se repete em nosso país), onde o modelo de beleza é o branco, eis que surge um negro. Pelo seu talento, enriquece. O dinheiro pode fazer (quase) tudo, inclusive mudar a cor. Aí acontece a porcaria! Não seria uma vítima o cantor?
Talvez, Ronaldinho Gaúcho tenha a mesma síndrome. Mas a obsessão, neste caso, não é a cor, mas a exibição. Como disse, não há problema algum em ser milionário, em nadar tal como o Tio Patinhas, em limpar as partes pudentas com nota de cem, mas não precisa tornar isso público. Muitos jogadores reclamam da falta de segurança e dos recentes seqüestros; se Marinho, Robinho e até mesmo o Grafite foram vítimas de tal crime (tendo suas mães levadas por vagabundos), por tão menos dinheiro em jogo (vale lembrar que nenhum deles teve qualquer demonstração de ostentação), uma atitude como a do craque pode motivar novos crimes.
Enquanto isso, na Ilha das Flores, um piá busca seu alimento entre montes de sacos plásticos!

2 comentários:

Anônimo disse...

ESSE CARA DEVIA AJUDAR A COMUNIDADE DELE NO RS

Ana disse...

Adorei, Alex. Muito bom mesmo. Você precisa buscar um jornal de bairro ou algo semelhante para poder divulgar seus textos profissionalmente.

PArabéns !

Ana Ziccardi